23 de mar de 2010

Parque Tecnológico: o debate necessário

Prezados Colegas,

Sei que alguns de vocês acompanharam de perto
o processo do Parque Tecnológico da UFRGS -
até por que estavam diretamente envolvidos nas
negociações - mas a verdade é que a maioria de
nós recebeu pouca informação ao longo de 2009
e não tivemos oportunidade de discuti-lo minima-
mente. Essa responsabilidade era da Reitoria, que
montou uma comissão para propor o projeto e
deveria ter aberto a discussão diretamente com
toda a comunidade universitária.

O projeto pode ser baixado e lido aqui (são 15 pá -
ginas), e o Regimento proposto - muito esclarecedor -
está em anexo (foi encaminhado em um CD com outros
materiais para as direções). A página da SEDETEC /
UFRGS também traz informações relevantes a essa
discussão, mas é na nova página do Parque da UFRGS
que encontramos uma tentativa de responder a algumas
críticas que só vieram a tona após a lamentável falta
de diálogo
protagonizada pela administração central em
5 de março passado.

Lendo o Projeto (e conhecendo o Regimento proposto)
salta aos olhos que mais argumentos são dedicados a
ressaltar o que a UFRGS tem a contribuir para as empresas
que integrarão o Parque, do que para explicar o que as
empresas têm a contribuir para a UFRGS
. Assume-se
como natural que todos compreendam isso... Essa abor-
dagem é no mínimo insuficiente.

Muito além do discurso doutrinário ou das evidências ane -
dóticas típicas da "literatura de negócios", cabe a docentes
de uma Universidade Pública fazer perguntas claras:
  • Sabemos bem o que a UFRGS tem a oferecer, mas o
    que receberá de volta, e em que condições?
  • É possível consumar-se a "troca" de conhecimentos
    (nossos) por investimentos (do setor empresarial) em
    termos (a) justos / equilibrados e (b) coerentes com as
    finalidades de uma Instituição Pública de Ensino Superior?
  • O que significa exatamente a expressão "transferência
    de conhecimentos e/ou de tecnologia" e como a popu-
    lação em geral se beneficia disso?
  • Qual o impacto da cultura "empreendedorista" e "com-
    petitivista" - já bastante difundida em certos setores da
    UFRGS - quando estiver implantada na escala física
    proposta?

Para entender essa proposta mais a fundo, convém saber
um pouco mais acerca da origem desses movimentos pró-
Parques, por exemplo, lendo o relatório brasileiro da
ANPROTEC / ABDI, (2009) disponível aqui, bem como
conferindo o famoso Batelle / AURP Report de 2007. Um
bom resumo dessas idéias pode ser achado no artigo prin -
cipal da revista
da CIETEC (janeiro de 2009), mas prepare-
se para um texto bastante ideológico e em tom de propagan-
da (vejam a semelhança com o material existente na página
do Parque
). Uma análise mais cuidadosa aparece no artigo
de Albert Link no livro publicado pela National Academy
of Sciences sobre Parques
(p.127 - este livro pode ser
baixado gratuitamente aqui).

Notem que, apesar de minha posição crítica, estou pro -
vendo-lhes referências basicamente favoráveis à idéia de
um "Parque Científico e Tecnológico", pois estou conven -
cido de que qualquer de meus colegas, em lendo este
material, perceberá a dimensão propagandística e, por
vezes, profundamente ingênua de toda essa concepção
.
Res ipsa loquitur - ela fala por si só. Que cada um decida
se é isso mesmo que queremos (e nesta escala) para nossa
Universidade.

Ajuda tentar responder a algumas questões adicionais:

  • Dá no mesmo incubar pequenas e médias empresas
    nacionais,
    que receber e servir a grandes conglomera-
    dos internacionais, inclusive os monopolistas?
  • É correto colaborarmos numa exagerada distribuição
    de recursos públicos para quem somente visa o lucro
    privado (e já recebe inúmeros benefícios do Estado)?
  • É papel da Universidade Pública, que cumpre sua fun-
    ção estratégica da melhor forma possível para a cons-
    trução do Brasil de amanhã, encarregar-se de emular
    o que seria uma Política Industrial Nacional (outrossim
    inexistente ou capenga) e instalar o "chão de fábrica" em
    suas próprias dependências, passando a "produzir"... bens
    e serviços? É essa a função de uma Universidade Pública?
  • É função de uma Universidade Pública garantir emprego
    para alguns de seus egressos? Não seria para garantir de
    todos?

Muitas perguntas que não tiveram chance de ver a luz do dia.

Enfim, é verdade que estamos atrasados nesta discussão,
mas antes tarde do que nunca, não é mesmo? Graças à
ousadia e determinação de um grupo de estudantes, fun -
cionários e cidadãos capazes de pensar por conta própria,
conquistou-se, a duras (e desnecessárias) penas, a possi -
bilidade de pelo menos dois "Debates Públicas". Um será
nesta terça (Campus do Vale), e o outro, no dia 31/03
(Campus Centro). Mais detalhes, acompanhe no blogue
"Observatório do Parque" ou na página do Parque.

Esperemos que outros aportes a essa questão - até agora
tratada como uma mera campanha de marqueting - sejam
ouvidos e mesmo considerados na redação final a ser votada
pelo CONSUN em 9 de abril. Precisaríamos de muito mais
tempo, mas quem decide por nós acha que não.

De qualquer forma, vamos debater?

1o Debate Público:

Campus do Vale

Data: 23 de março (terça-feira)

Horário: 16h

Local: Auditório do Instituto de Informática


Saudações Universitárias,

Jorge A. Quillfeldt

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